Saudade


Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói as cólicas, cáries e pedras no rim. Mas o que mais dói? É saudade. A saudade que é dita tão presente em mim, a saudade de tudo o que de bom é relembrado, dói mesmo e custa acreditar que foi a dor mais rápida no acontecimento e bastante vagarosa a passar. Saudade de um familiar que mora longe. Saudade de uma brincadeira de infância. Saudade de uma cidade. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais amargurada é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, das palavras. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Eu podia até mesmo ficar o dia sem o ver, e ele o dia sem me ver, mas o dia de amanhã mudava. Mas quando tudo isto acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. A saudade é não saber. Não saber se ele está bom, onde está, onde foi, saudade de já não saber ouvir tudo o que dizia, saudade de não saber como fazer para que tudo volte.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar funções que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante o silêncio, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele quer outra, se ele está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

/ sinto saudades, até um dia, fica bem.


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